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Ferreguetti & Poubel Advocacia

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Conteúdo informativo

Troca, arrependimento e prazos

Quatro institutos diferentes vivem sob a mesma palavra — "troca" —, e confundi-los é a origem de boa parte do atrito no balcão.

Quatro coisas distintas

1. Arrependimento — art. 49

Sete dias para desistir, apenas quando a contratação ocorre fora do estabelecimento comercial. Não exige motivo nem defeito.

2. Vício do produto — art. 18

O produto tem defeito. Trinta dias para sanar; depois, substituição, restituição ou abatimento, à escolha do consumidor. Independe de arrependimento.

3. Garantia contratual — art. 50

O que a loja ou o fabricante oferece por escrito, complementar à garantia legal. Vale nos termos do termo entregue.

4. Troca por liberalidade

A política comercial da loja: troca por gosto, por cor, por modelo. Não decorre da lei — mas, anunciada, vincula pelos arts. 30 e 35.

O art. 49 e o que ele realmente diz

O art. 49 do CDC: o consumidor pode desistir do contrato, no prazo de sete dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio.

O parágrafo único completa: exercido o direito de arrependimento, os valores eventualmente pagos, a qualquer título, durante o prazo de reflexão serão devolvidos, de imediato, monetariamente atualizados.

A consequência que surpreende os dois lados. Compra feita na loja física não tem direito legal de arrependimento — o consumidor viu, experimentou e decidiu ali. Compra feita pela internet, por telefone, por aplicativo de mensagem ou em atendimento a domicílio tem, ainda que o produto seja personalizado. O art. 49 não excepciona o produto sob encomenda: quem vende óculos de grau on-line convive com essa exposição, e ela não se afasta por cláusula contratual — seria nula pelo art. 51, I e XV.

Duas anotações sobre a contagem: o prazo corre da assinatura ou do recebimento, e para produto entregue depois é o recebimento que interessa; e a devolução é do valor pago "a qualquer título", o que alcança o frete pago na compra, conforme a orientação que os tribunais têm firmado.

Os prazos do art. 26

O art. 26 fixa os prazos para reclamar de vício aparente ou de fácil constatação:

Trinta dias

Produtos e serviços não duráveis.

Noventa dias

Produtos e serviços duráveis — a moldura usual de armação, lente e montagem.

O §1º conta o prazo da entrega efetiva do produto ou do término da execução dos serviços. O §3º trata do vício oculto: o prazo começa no momento em que ficar evidenciado o defeito — o que alcança, por exemplo, o descolamento prematuro de tratamento que só se manifesta meses depois.

O §2º é o dispositivo menos conhecido e o mais relevante na prática. O prazo de reclamação é obstado pela reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor, até a resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca; e pela instauração de inquérito civil, até seu encerramento. Na prática: reclamação registrada segura o prazo. Isso protege o consumidor que reclamou e não obteve solução — e, do lado da ótica, significa que responder de forma vaga, ou não responder, deixa o prazo indefinidamente em aberto.

Não confundir o art. 26 com o art. 27, que fixa em cinco anos a prescrição da pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço — o acidente de consumo do art. 12 e do art. 14. Vício e fato do produto são planos distintos: uma lente que quebra e fere o olho não é apenas produto defeituoso.

A garantia contratual do art. 50

O art. 50 dispõe que a garantia contratual é complementar à legal e será conferida mediante termo escrito. O parágrafo único exige que o termo, padronizado, esclareça de maneira adequada em que consiste a garantia, bem como a forma, o prazo e o lugar em que pode ser exercitada e os ônus a cargo do consumidor, devendo ser-lhe entregue devidamente preenchido no ato do fornecimento.

"Complementar" é a palavra decisiva. A garantia contratual se soma à legal; não a substitui nem a reduz. Um termo de garantia de doze meses não apaga o art. 26 nem o art. 18, e um termo que pretenda excluir a garantia legal esbarra no art. 51, I. No setor óptico, o ponto prático é delimitar o objeto: garantia da lente, do tratamento aplicado sobre ela, da armação, da montagem — são coberturas com naturezas e prazos que costumam ser diferentes, e um termo silente é um termo interpretado contra quem o redigiu.

Troca por liberalidade

A troca por gosto, cor ou modelo não decorre da lei. A ótica pode oferecê-la, restringi-la ou não tê-la. O que a lei governa é a oferta: anunciada, ela obriga nos termos anunciados, pelos arts. 30 e 35.

Elementos que uma política escrita costuma precisar ter:

  • Prazo, contado de marco objetivo e registrado
  • Estado exigido do produto, descrito de forma verificável
  • O que está incluído e o que não está — armação, lente, tratamento
  • Forma da devolução: produto, crédito ou dinheiro, dita assim desde o anúncio
  • Documento necessário e a quem recorrer

Um ponto sobre a lente com grau. A lente surfaçada para um grau específico não tem, na prática, valor de revenda. Isso é fato comercial legítimo e pode justificar uma política de liberalidade mais restrita para a lente do que para a armação — desde que a distinção esteja escrita e anunciada. O que não se sustenta é anunciar "troca em 30 dias" de forma ampla e depois recusar a parte que interessa ao cliente.

Cláusulas que não se sustentam

O art. 51 declara nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer natureza (inciso I) ou que estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor (inciso XV). E o art. 54, §4º exige que cláusulas que impliquem limitação de direito do consumidor sejam redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão.

Exemplos frequentes no setor, descritos como categoria:

  • "Produto personalizado não tem troca em nenhuma hipótese" — confunde arrependimento com vício e, na parte do vício, é nula
  • "Não nos responsabilizamos por não adaptação" quando houve promessa de adaptação anunciada
  • Devolução exclusivamente em crédito, quando a oferta prometeu o dinheiro
  • Cláusula limitativa impressa em corpo mínimo no verso do pedido, sem destaque — art. 54, §4º

Este texto descreve prazos e institutos gerais. A contagem de um prazo concreto, a validade de uma cláusula específica e o alcance de uma política anunciada dependem dos documentos e da prova disponível, e sua avaliação é atividade privativa de advocacia na forma do art. 1º da Lei 8.906/1994. Nada aqui constitui parecer.

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